
O VT inverte a TV
Durante anos a única forma que havia sido inventada
para se registrar uma cena real ou encenada era o cinema. E os filmes sempre
foram caros, perecíveis, de realização sofisticada. Quando a TV nasceu ela
naturalmente se tornou uma atração diferente do cinema. Era imagem sim, mas ao
vivo, em tempo real. Ela se favorecia dessa condição.
A TV mostrava o que antes só se ouvia no rádio.
Mas um dia, quando a tecnologia criou a fita de vídeo, o curso da televisão em
todo o planeta se transformou para sempre. A partir daí seria possível registrar
o que se fazia nos estúdios, encenar uma peça num dia para ser exibida dias
depois, emitir uma mesma atração em muitos lugares. E tudo sem os custos e as
complicações do cinema. Era o inicio de uma nova era.
NOVIDADE POLÊMICA
Quando a novidade chegou ao Brasil a polêmica se estabeleceu. O vídeo-tape era
uma tecnologia fascinante para alguns e perigosa para outros. Muitos
profissionais tinham medo do que a nova máquina poderia fazer com suas
carreiras. Muitos achavam que trabalhariam muito mais, pois precisariam de mais
horas para gravar com perfeição suas cenas. Até os sindicatos se posicionaram.
Mas como sempre a novidade avançou.
A PRIMEIRA GRAVAÇÃO
A primeira gravação em vídeo-tape no Brasil aconteceu no Copacabana Palace, em
1959. A primeira cena registrada foi o close do relógio do repórter CARLOS
PALLUT, da TV CONTINENTAL do Rio de Janeiro, marcando 15h. Foi gravado um show,
apresentado por RIVA BLANCHE e dirigido por HAROLDO COSTA, que foi ao ar às
21h00. A reação foi surpreendente! O diretor da emissora, DEMIRVAL COSTA LIMA,
gritou no estúdio quando assistiu à cena do relógio: "Isto é coisa do diabo!"
Porém a alegria durou pouco. Por ser um equipamento muito caro o canal 9 carioca
devolveu a novidade, só voltando a ter um VT, mais barato, no fim de 1960. O
devolvido era da marca AMPEX e o que chegou depois, da EMERSON. Em 1960 a TUPI,
a EXCELSIOR (recém inaugurada) e a TV RIO compraram seus vts.
Nas palavras do pioneiro LUIZ FRANCFORT: "Quando a "coisa" chegou, um Ampex,
era como um gigantesco gravador de som, pouco menor que um guarda-roupa, com
rolos de fita de quase 50 cm. de diâmetro e pesando vários quilos. Carreguei
muitas entre S. Paulo e Rio!"
EM SÃO PAULO
Em São Paulo a entrada triunfal do VT foi em setembro de 1960 com a gravação do
clássico HAMLET, de Shakespeare, para a inesquecível série TV DE VANGUARDA. No
elenco estavam LUIZ GUSTAVO, como protagonista, SÉRGIO BRITTO e FERNANDA
MONTENEGRO, entre outros. Essa gravação fez parte das comemorações de dez anos
da emissora.
PIONEIRISMOS
Alguns registros afirmam que a primeira utilização oficial do vídeo-tape foi na
inauguração de Brasília, em abril de 60, quando a Record gravou através da então
TV ALVORADA cenas da festa. A fita foi enviada rapidamente para São Paulo, por
avião, para ser exibida a noite. A primeira utilização do VT como recurso de
criação aconteceu em 1961 no programa CHICO ANYSIO SHOW, da TV RIO, onde Chico
contracenava com ele mesmo, fazendo diversos papéis. E a primeira novela a
utilizar o VT foi GABRIELA, CRAVO E CANELA, da TV TUPI do Rio de Janeiro,
montagem pioneira que teve como o dr. Mundinho Falcão o consagrado PAULO AUTRAN.
CHICO ANYSIO SHOW, EDITADO E EM REDE
O pioneiro ARNALDO COHN fala sobre seu trabalho no início do video-tape: "De
1962 a 1964 trabalhei na TV Rio e logo após na TV Excelsior, como técnico de
video-tape (à época uma enorme máquina, cheia de válvulas e motores,
necessitando reparos quase diariamente). E me recordo que na TV Rio tínhamos um
único video-tape e na TV Record haviam duas máquinas. Assim, o programa CHICO
ANYSIO SHOW – que era totalmente editado manualmente, com gilete e fita adesiva
no Rio de Janeiro – era levado (esta era uma de minhas funções) à TV Record (Rua
Miruna), onde eu fazia uma cópia que deixava lá. Depois a original eu levava de
volta. E então, no dia do programa a TV Rio e a TV Record colocavam
"simultaneamente" no ar "em rede"; o programa do Chico. Isto era a rede que
tínhamos na época".
A revolução do VT se tornou irreversível:
reportagens iam ao ar sem necessidade de levar o filme para revelar, erros eram
consertados antes da exibição, novelas, shows e entrevistas podiam ser gravados
com antecedência, surgiu o VT do jogo e depois o replay. A TV que era rádio com
imagem se tornou um cinema de tela pequena. A implantação do VT foi uma fase
decisiva para que a TV encontrasse sua verdadeira razão: nem rádio, nem cinema,
mas apenas: televisão.
Nesta página teremos muitas histórias sobre tecnologia e técnicos, muitas
informações sobre a evolução dos equipamentos da tv, muitas curiosidades sobre
aquela parte da tv que o publico não vê. Você pode colaborar. Mande suas
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Fonte: Arquivo Pró-TV, site Sampa On Line (Elmo Francfort), livro "Almanaque da TV" (Ricardo Xavier) e depoimentos de Luiz Francfort e Arnaldo Cohn | Atualizado em: 30/05/2007