
Cristina, há quantos anos você trabalha com
suplementos voltados à televisão? Quais foram (e em que jornais)?
Cristina Padiglione:
Estou nessa área desde 1990, ou seja, 17 anos. Comecei na equipe do Ferreira
Netto, que tinha uma coluna de TV publicada, na época, na Folha da Tarde (hoje
jornal Agora SP) e em mais 30 jornais pelo País. De lá segui para a própria
Folha da Tarde, onde comecei a assinar a coluna Zapping e a fazer reportagens,
sempre sobre o universo de TV. Fiquei até 1995. Depois segui para o Jornal da
Tarde, onde assinava a coluna Gente de TV; em 97, fui de lá para a Folha de
S.Paulo (coluna Outro Canal, até 99) e só depois desembarquei no Estadão, onde
estou até hoje.
Na sua carreira, você tinha interesse pelo assunto Televisão ou foi por acaso
que se segmentou para este campo?
Cristina Padiglione:
Foi por acaso, mas, de certa forma, eu direcionei o acaso para isso. Trabalhava
na equipe do Ferreira Netto para o programa de TV que ele comandava diariamente
na Record. Fiquei quase um ano na produção, mas manifestei meu interesse em
escrever, sempre gostei mais de escrever, e por isso pedi minha transferência
para a equipe de redatores da coluna, que, no caso, era de TV (talvez tenha sido
a primeira coluna sobre informações de bastidores de TV). Gostei e fui ficando.
Cheguei a trabalhar um ano em revista de celebridade (Chiques & Famosos), mas
fiquei aliviada em retornar ao métier televisivo.
Airton Rodrigues e Lyba Friedman foram alguns dos pioneiros da cobertura
jornalística de TV pela imprensa. Eles influenciaram muitos jornalistas na
época. Você recebeu influência de algum jornalista? Gostaria de citar alguns dos
seus "professores"?
Cristina Padiglione:
Minha influência vem do Flávio Ricco, que sempre foi o redator-chefe da coluna
do Ferreira Netto e hoje assina a coluna Canal 1 (DCI, Tribuna da Imprensa e
outros jornais). É claro que, de lá para cá, conheci outros profissionais e
estilos, admirei uma dezena de textos alheios, não necessariamente sobre TV, que
foram interferindo no processo de escrever.
Sabemos que além de escrever sobre televisão, já fez parte do próprio meio.
Como foi estar do outro lado? Conte um pouco para nós da sua experiência.
Cristina Padiglione:
Gravei uma novela no SBT, As Pupilas do Senhor Reitor, e foi uma experiência bem
bacana. Fazia parte de um elenco quase de apoio, digamos, o que me permitiu
curtir a experiência e aprender um pouco sobre o ofício sem ser altamente
cobrada por resultados. Foi um convite do diretor Nilton Travesso, o que muito
me honra e a equipe era fantástica. O mais engraçado, sempre digo, foi observar
que não há, num set de TV, mais vaidade do que há numa redação; a diferença é
que os atores de fato trabalham com isso muito melhor que os jornalistas e
conhecem os riscos do exibicionismo, enquanto os jornalistas mal admitem a
vaidade que lhes move (geralmente em relação ao poder de interferir nos rumos da
história, seja no campo cultural, econômico, esportivo ou político, e não a
vaidade física, claro).
Para você, qual é a importância de fazer a cobertura do que acontece na
televisão?
Cristina Padiglione:
Em primeiro lugar, não há a pretensão de inflar ou reduzir a audiência de
qualquer canal. A importância de cobrir TV não é o fator que mais salta aos
olhos, em publicação alguma: na minha opinião, a utilidade de tal cobertura está
em qualquer contribuição que possa ser dada ao leitor-telespectador no sentido
de fazê-lo pensar e refletir a TV, de saber distinguir o que é sensacionalismo
de jornalismo, enfim, de ajudar o leitor a sacar as entrelinhas da TV, filtrando
o que vale ser assimilado e o que vale ser descartado. Mas, de modo geral, no
dia-a-dia, ninguém teria ânimo em ler caderno de TV se a essência fosse pura
reflexão. Em primeiro plano, na cobertura, está o mesmo elemento que move a TV:
entretenimento. Em meio à diversão, claro, podemos e devemos mencionar elementos
que contribuam para a reflexão. Por exemplo: em vez de se divulgar que a
emissora C bateu a B por x pontos no ibope, convém informar O QUE motivou tal
placar, o que ambas exibiam no horário referido (um show? um assassinato? uma
relação sexual? uma fábula? Em suma, a idéia é divertir, sem perder o fio da
reflexão.
Qual matéria realizou que mais te marcou? E por quê?
Cristina Padiglione:
As matérias que não realizei foram as que mais me marcaram. A campeã foi ter
perdido a chance de trocar duas palavrinhas com Silvio Santos numa festa na casa
da Hebe Camargo. Fui me comportar, à espera do momento oportuno, e o homem foi
embora antes do jantar, nunca me perdoei por isso e nunca tive outra chance.
Do que fiz como levantamento de informação exclusiva, e num tempo em que essa
palavra não era tão banalizada como hoje, o que mais me marcou foi um memorando
que consegui, assinado pelo Boni, que determinava um veto à participação do Tim
Maia em qualquer programa da Globo, depois de ele ter dado o cano em uma atração
da emissora. Na época, Tim soube da história por mim.
E há várias entrevistas que valeram muito a pena, conversas que guardei na
memória, momentos que ajudaram a formar um pouco da visão que tenho sobre o
ofício de trabalhar em TV. Posso mencionar aqui a própria Hebe, o Boni mesmo, a
Nair Bello, a Denise Fraga, o Evandro Carlos de Andrade, o Luciano Callegari, o
Chico Pinheiro, o Roberto Muylaert, a Lillian Witte Fibe e até o doutor Drauzio
Varella, cujo ofício central não é a TV, repare bem, mas que sabe, como poucos,
tirar do veículo o melhor proveito que ele tem a oferecer, no sentido de levar
informação à massa.
Já participou de quantos Troféu Imprensa? Qual a importância de se homenagear
os profissionais de TV e seus trabalhos?
Cristina Padiglione:
Participei de quatro, mas fui voto vencido em várias opções e muitas vezes tive
de escolher entre três finalistas que não eram de minha concordância. Já na APCA,
Associação Paulista dos Críticos de Artes, onde travamos um debate até eleger um
premiado, o prazer de homenagear alguém acaba sendo maior porque há uma série de
argumentações entre os críticos, e não apenas um voto entre três opções.
De todo modo, tributos, quando merecidos, são sempre prazerosos. Adoro
parabenizar e me ajoelhar diante dos criadores que me emocionam e que sabem
emocionar o público.
Como enxergava a TV quando começou a escrever? E hoje, como a enxerga?
Cristina Padiglione:
Há uma longa distância, mas não pelo fato de a minha visão ter mudado. A TV
mudou muito. Quando comecei a escrever, o assunto era muito centrado em conteúdo
de meia dúzia de canais. Depois de alguns anos, começamos a falar em TV paga, e,
com ela, começamos a falar mais em negócios, dívidas, financiamentos,
concorrência, distribuição de conteúdos estrangeiros e, sobretudo, tecnologia:
hoje, quem começa a cobrir TV deve essencialmente entender os lobbies que movem
as teles e as TVs, rumo à distribuição de TV, banda larga e telefonia. É um
universo muito diferente. É preciso entender quem se alia a quem nas
intermináveis fusões, quem abre ações ao capital estrangeiro, enfim, a uma visão
econômica indispensável para se falar também de conteúdo.
Você realizou para o Grupo Estado uma matéria sobre as instalações antigas
das TVs (muitas em estado deplorável). Como vê o papel de resgatar a história da
televisão?
Cristina Padiglione:
Lamento a falta de entusiasmo da iniciativa privada em patrocinar com mais
ênfase a memória da nossa TV, como a recuperação de filmes, fitas e fotos e seu
armazenamento em local adequado. Esse trabalho tem sido feito sempre de forma
desordenada. A Globo tem feito o melhor pela história da TV com esse Memória
Globo, projeto que prevê a gravação de pelo menos um depoimento por semana e que
preserva o riquíssimo acervo da casa. Mas é preciso que alguém se movimente
pelas emissoras que já não existem, em especial, Tupi, Excelsior e Manchete,
cujo acervo, tão recente, é um mistério: ninguém sabe informar precisamente em
que condições e onde se encontram as produções da massa falida.
Gostaria de deixar uma mensagem para a Pró-TV e para os que acessam este
portal?
Cristina Padiglione:
Gostaria de parabenizar a iniciativa de quem, a duras penas, tenta preservar a
memória da TV.
E queria muito que as pessoas pensassem a TV com mais responsabilidade. Aprecio
muito a atenção que os acadêmicos (os mais seguros, pois os inseguros ainda se
enganam com a idéia de que a TV é maléfica e, por isso, pura bobagem) passaram a
dar a esse tubo, tão poderoso e por tanto tempo desprezado pelos ditos
pensadores deste país. A TV influencia, dita moda, padroniza costumes (o que nem
sempre é bom para as culturas regionais), mas também difunde um pouco das
culturas regionais. Tem de ser vista e estudada com o respeito que as massas lhe
atribuem.
Veja também
> Conheça "Teleguiados", o Blog de Cristina Padiglione (O Estado de S.Paulo)
Cristina Padiglione
Da década de 1990 para cá, é difícil abordar o tema televisão sem esbarrar no nome de Cristina Padiglione. A jornalista, hoje no Estadão ("TV & Lazer" e "Caderno 2"), já passou pelos principais jornais de São Paulo. E ela, cada vez mais, deixa sua marca na história da cobertura jornalística sobre TV. Consegue dar equilíbrio ao cobrir assuntos que falam do passado, do presente e do futuro do meio. Acompanhe a entrevista.
