
BIOGRAFIA DE FRANCISCO DORCE PARA O MUSEU DA TELEVISÃO BRASILEIRA
Francisco Dorce deveria se chamar Francisco Dolce, pois esse é o sobrenome do resto de sua família. Mas em seu registro há o Dorce, e foi com esse sobrenome que ele se tornou conhecido nos meios artísticos . Dorce nasceu na cidade de Santos, litoral paulista, em 28 de março de 1911. Mas, fato curioso, após penosas pesquisas no "Ufficio Anagrafe", na Itália,ficaram sabendo que Francisco Dorce constava como nascido em Spazzavento, província de Firenze, na mesma data. A família Dolce chegou ao Brasil em 1912, na cidade do Rio de Janeiro. O menino Dorce era chamado de Franceschino, por todos os seus familiares.Eles não ficaram no Rio de Janeiro. Seguiram para Belo Horizonte, onde o pai Guido montou uma peixaria e a mãe Francesca começou a costurar para fora, para ajudar no sustento. Assim cresceu Francisco, que desde cedo demonstrou gostar de música. Iniciou logo seu curso de piano. Aos 16 anos , embarcou sozinho para o Rio de Janeiro, e se inscreveu no Conservatório Nacional de Música.Sua mãe lhe enviava pequeníssima mesada e ele logo começou a ter que trabalhar para se manter. Aos 19 anos, Dorce embarcou num navio de bandeira alemã e percorreu o mundo, tocando na orquestra da embarcação. Conheceu o vasto mundo, tendo tocado em vários "cafés-concerto", que existiam na época. Em 1933 voltou ao Brasil e percorreu o circuito Rio-São Paulo, tocando em boates, cassinos, inclusive no famoso Cassino da Urca, no Cassino Monte Serrat, e em outros. Acompanhou Carmem Miranda, entre outros grandes nomes. Em 1939 foi contratado pelas Rádios Tupi e Difusora de São Paulo. Era pianista e arranjador e criou a "Grande Orquestra Tupã", com 30 músicos, e que excursionou pelo México, Uruguai, Argentina e muitos outros paises. Tinha vários cantores de nome em seu elenco, tais como: Caco Velho, Elsa Laranjeira, Vida Alves, Hebe Camargo, e outros.
Num baile de formatura Francisco Dorce conheceu Maria Bazoni, com quem se casou e que lhe deu duas filhas: Sônia Maria e Marcia. A primogênita foi atriz mirim de muito sucesso, tendo sido o primeiro rosto a aparecer na tela da Televisão Tupi, a pioneira, que foi inaugurada a 18 de setembro de 1950.
Um dos grandes amigos de Francisco Dorce foi Homero Silva. Juntos eles lançaram o programa infantil:"Clube do Papai Noel", que marcou época e que ia ao ar aos domingos, às 10 horas da manhã, quando a fila dobrava as esquinas do Sumaré, pois todos queriam ver as crianças que se apresentavam no palco, embora o programa fosse de rádio. E as crianças cantavam, declamavam, dançavam. Dentre elas estavam: Hebe Camargo, Wilma Bentivegna, Erlon Chaves, Vida Alves e um número imenso de futuros profissionais de rádio e de televisão.
Francisco Dorce, homem bondoso e afável, tinha facilidade em fazer amigos e os fez às centenas. Alguns de grande nome e importância nacional, como Juscelino Kubitschek, no tempo em que o maestro morou em Belo Horizonte. Depois, quando já em São Paulo, e já profissional da noite, Dorce fez amizade com o grande jornalista Assis Chateaubriand, que era o proprietário das Emissoras e dos Jornais Associados, e que lançou a Televisão Tupi. E eles ficaram tão amigos, que Chatô, como era chamado, deu a Chico Dorce um aparelho de televisão, quando da inauguração da emissora. E foi uma festa total, pois o aparelho foi montado na janela da casa do maestro, para que os vizinhos pudessem também assistir a festa de inauguração, bem como os programas subseqüentes. Foi instalado ali um centro de televizinhos, que se tornou moda então. Francisco Dorce freqüentava também famílias importantes, como os Matarazzo, os Simonsens. os Lunardelli, os Selmi Dei, enfim, a alta sociedade da época. Mas o maestro tinha uma peculariedade: nunca se aproveitou dessas amizades, pra o que quer que fosse.
Francisco Dorce sofreu um acidente de carro em 1952 e teve fratura exposta no osso do braço, o que o impediu de trabalhar pelo longo período de dois anos. Foi aí que a garotinha Sônia Maria Dorce, que era uma garota prodígio, entrou em cena e começou a trabalhar em seriados de televisão, em festivais, em comerciais. Assim ela começou a colaborar com as despesas da casa, pois o pai estava impedido de trabalhar.
Francisco Dorce era também compositor., escrevendo letra e música de muitas composições. Ela admirava todas as pessoas que se esforçavam, se formavam, e o mesmo queria para suas filhas, sonho que conseguiu concretizar. E teve mais uma coisa rara, que o fazia grande e que ele conseguiu passar às suas filhas, à sua família e aos garotos do Clube do Papai Noel, que o amavam muito e que o tinham como guru. Dizia; "A arte é um dom de Deus, uma dádiva. Por isso devemos doá-la aos demais e não cobrar nada por ela".
Francisco Dorce estudava piano cerca de oito horas por dia. Ele parou de tocar no dia 25 de dezembro de 1982. E faleceu em 1º de janeiro de 1983. Foi um artista na expressão total do termo. Quem o conheceu não o esquecerá jamais.