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A história da TV Record



Com 31 contos de réis, Paulo Machado de Carvalho associou-se a seu cunhado João Batista do Amaral, a Jorge Alves Lima e ao técnico de som Leonardo Jones Jr para comprar uma estação de rádio de Álvaro Liberato de Macedo, em 1931. A rádio recebera o mesmo nome da loja de discos do antigo dono: Record. Situada na Praça da República, 15, logo virou líder em SP com apresentação de artistas internacionais como Lucho Gatica e Pedro Vargas. A organização PMC se expandiu com a inauguração da Rádio Excelsior e a compra da Rádio Pan-Americana, especializada em novelas, que foi transformada na Jovem-Pan, uma estação esportiva.

Em 1948, o grupo PMC criou as ‘Emissoras Unidas’, constituídas pela Record, Pan-Americana, São Paulo, Bandeirantes e Excelsior. De olho no mercado televisivo, Paulo Machado de Carvalho montou uma estação num prédio adaptado no bairro de Congonhas. A diretoria costumava entrar pela Av. Miruna, 713 e os demais funcionários pela Av. Moreira Guimarães, 1.128. O projeto da televisão começou a se tornar realidade após a concessão obtida em 22/11/50. Três anos depois, uma transmissão experimental trouxe o coral da Escola Normal Caetano de Campos e a orquestra da Força Pública de São Paulo.

Finalmente, às 20h do dia 27/09/53, entrava no ar oficialmente o canal 7, número que o empresário considerava cabalístico e favorável. Blota Junior e Sônia Ribeiro desceram uma escadaria e anunciaram: “Senhoras e senhores, está no ar a TV Record, canal 7”. Após o prefixo musical, Blota discursou e iniciou-se um espetáculo com Dorival Caymmi, Inezita Barroso, Adoniran Barbosa, Isaura Garcia, Pagano Sobrinho, Randal Juliano, a orquestra de Enrico Simonetti e vários dançarinos. Os filhos de PMC tomavam conta da emissora: Paulinho (direção artística), Alfredo (departamento comercial) e Antônio Augusto Amaral (o “Tuta”, produção e setor técnico). Em seu primeiro ano se destacaram o telejornal diário “Estado de São Paulo”; o show “Grandes Espetáculos União”, apresentado por Blota Junior e Sandra Amaral; o boletim local “Nossa Cidade”, com Nicolau Tuma. Ainda naquela década estrearam “Capitão 7” (seriado de aventuras com Ayres Campos, 1954), “Grande Ginkana Kibon” (Vicente Leporace apresentando calouros mirins, 1955) e “Astros do Disco” (destacando músicas e cantores do momento, 1958).

Para receber com pompa os cartazes internacionais, o Teatro Record da Rua da Consolação (antigo Cine Rio) foi inaugurado em 09/03/59, com a temporada do cantor norte-americano Roy Hamilton. Em 1960, atrações como “Grande Show União” levaram o canal ao 1º lugar na audiência geral de São Paulo. No final da década de 50 e início dos anos 60, freqüentaram a telinha do 7 diversos astros mundiais, como Louis Armstrong, Sammy Davis Jr, Charles Aznavour e Nico Fidenco. Os musicais foram o ponto forte do canal, que teve importância fundamental na popularização da bossa nova, do iê iê iê nacional, do tropicalismo, do som da pilantragem e da música de protesto. Os célebres Festivais da MPB, promovidos no canal a partir de 1966, impulsionaram o sucesso de Nara Leão, Chico Buarque e Caetano Veloso, entre outros artistas. Os programas “O Fino da Bossa”, com Elis Regina e Jair Rodrigues (1965) e “Jovem Guarda”, com Roberto Carlos e a turma do iê iê iê (1965) se tornaram antológicos. A. A. A. de Carvalho, Nilton Travesso, Manoel Carlos e Raul Duarte formaram a famosa “Equipe A”, responsável pela criação de sucessos como “Hebe” (1966) – quando Hebe Camargo viveu o auge de sua carreira, em seu programa dominical; o humorístico “A Família Trapo” (1967); o game show de casais “Alianças Para o Sucesso” (1968) e “Dia D” (1969) – show, entrevistas nacionais e internacionais com Cidinha Campos e posteriormente Maysa. Também ajudaram a manter na liderança de audiência nos anos 60 o programa de variedades “Show do Dia 7” (1965), “Bossaudade” (1965), tendo a cantora Elizeth Cardoso como anfitriã; “Corte-Rayol Show” (1965), com Renato Corte Real e o cantor Agnaldo Rayol numa versão tupiniquim de Jerry Lewis e Dean Martin; “Show em Si…Monal” (1966), com Wilson Simonal e seus convidados; o game show de celebridades “Essa Noite Se Improvisa” (1967); o show de calouros “É Proibido Colocar Cartazes” (1969) e o apelativo “Quem Tem Medo da Verdade?” (1969). No dia de seu 16° aniversário, em 1969, a emissora inaugurou o novo Teatro Record, na rua Augusta 973, onde ficava o antigo Cine Regência. As ‘Emissoras Unidas’ de canais de televisão eram então compostas pela TV Record, TV Rio e TV Alvorada, de Brasília. No final dos anos 60, a emissora entrou em fase de decadência após uma sucessão de incêndios que destruiu seus auditórios, equipamentos e instalações. Sua programação passou a se resumir basicamente aos esportes, jornalismo e, principalmente, filmes enlatados. O famoso programa do animador Raul Gil estrearia em 1973.

A partir de 1971, os Machado de Carvalho foram vendendo ações da Record ao empresário e comunicador Sílvio Santos, que manteve a negociação em sigilo por algum tempo. Com esta nova injeção de capital e a absorção de uma nova geração de dirigentes, a emissora começou a esboçar uma reação. Em 1980, a TVS do Rio de Janeiro e a Record de São Paulo deram início à construção de uma nova rede, o SBT, mantendo-se na vice-liderança de audiência geral, atrás da Globo.

No dia 30/12/81, Roberto de Oliveira e Cláudio Petraglia produziram um especial que tentou resgatar um pouco do prestígio dos antigos espetáculos: “Os Musicais Estão de Volta” trouxe de volta Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso, Nara Leão, Edu Lobo, Simone e Elis Regina (em seu último show na tv, de volta à velha casa). A TV Record finalmente chegou ao Rio de Janeiro pelo canal 9, em 03/04/82. Sílvio Santos, que chegou a ser acionista majoritário da rede, abandonou a sociedade em 1989. Por US$45 milhões, o bispo evangélico Edir Macedo obteve o controle da TV Record em abril de 1990, quando a emissora já havia perdido definitivamente o brilho e o glamour daquela programação que fez sua história. Adotando uma linha bem popular, recuperou boa parte da audiência com Ratinho, Ana Maria Braga, Eliana e Raul Gil.

Crédito obrigatório: Texto retirado do “Almanaque da TV – 50 Anos de Memória e Informação”, Ricardo Xavier (Ed. Objetiva, 2000), com autorização do autor.

Elmo Francfort

O autor é Gestor de Conteúdo da PRÓ-TV, além de consultor de televisão, na área de pesquisa e teledramaturgia. Faz parte da associação desde 2001. Já escreveu inúmeros livros sobre a história da televisão brasileira, sua área de especialidade.

 
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